Retrato da Solidariedade: Comportamento Pró-social no Brasil é uma pesquisa anual de opinião pública que analisa práticas de comportamento pró-social da população adulta brasileira, como doações financeiras, doação de bens, trabalho voluntário e a disposição para doar sangue, órgãos e tecidos. O estudo acompanha a evolução desses comportamentos ao longo do tempo e investiga seus determinantes sociais, econômicos e regionais. A pesquisa é coordenada pelo Laboratório de Comportamento Pró-social e Políticas Públicas do Instituto Pensi, braço de pesquisa da Fundação José Luiz Setúbal.

Histórico e objetivos A pesquisa foi lançada em 2023 com o objetivo de produzir dados sistemáticos e comparáveis sobre a cultura de doação e solidariedade no Brasil. A iniciativa busca suprir a escassez de informações confiáveis sobre filantropia individual no país e subsidiar tanto a produção acadêmica quanto a formulação de estratégias por organizações da sociedade civil (OSCs) e formuladores de políticas públicas. Entre seus objetivos centrais estão:

mapear a incidência e os tipos de comportamentos pró-sociais praticados pela população brasileira; analisar motivações, barreiras e padrões de doação; avaliar diferenças regionais, socioeconômicas e demográficas.

Metodologia A pesquisa é realizada por meio de entrevistas presenciais domiciliares, método considerado de maior rigor científico em países de renda média.

Toda pesquisa de opinião enfrenta algum grau de dificuldade para alcançar todos os extratos da população (cobertura) e para entrevistá-los (algumas pessoas não podem ou não querem participar). Mas esses problemas são maiores nos levantamentos feitos por telefone ou online — o que aumenta o risco de os resultados estarem enviesados. Vários estudos indicam que, em países de renda média, como o Brasil, as sondagens por telefone ou internet não atingem a precisão das sondagens presenciais mesmo quando aplicam técnicas para tentar corrigir as distorções (como pós-estratificação e pareamento/matching). Elas tendem a obter menos respostas da população de baixa renda.

Na edição de 2024, o trabalho de campo ocorreu entre 17 e 23 de dezembro e ouviu 2.568 pessoas com 18 anos ou mais, distribuídas em 120 municípios das cinco grandes regiões do país. A amostra é representativa da população brasileira, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Um diferencial metodológico do estudo é a sobreamostragem de domicílios de alta renda, estratégia adotada para permitir análises mais precisas sobre o comportamento de doadores com maior capacidade contributiva. A literatura acadêmica indica que, como renda e doações se concentram fortemente nos estratos mais elevados, a sobreamostragem desses grupos é necessária para permitir inferências estatisticamente mais robustas.

Principais resultados A edição de 2024 indicou que cerca de 58% da população adulta brasileira realizou ao menos uma ação solidária relacionada a OSCs, seja por meio de doações financeiras, doação de bens ou trabalho voluntário. O levantamento apontou crescimento das doações financeiras, que passaram de 27% da população em 2023 para 32% em 2024. O estudo estimou que o total de recursos doados por indivíduos a organizações da sociedade civil alcançou R$ 23,6 bilhões em 2024, um aumento em relação ao ano anterior, correspondendo a cerca de 0,20% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Grande parte desse crescimento foi associada às enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024, que mobilizaram doações de bens, recursos financeiros e trabalho voluntário em escala nacional.

Causas e perfil das organizações A edição de 2024 do Retrato da Solidariedade mostra que as principais causas apoiadas financeiramente pelos brasileiros foram o combate à fome, a assistência social e a área da saúde. Entre os doadores, 30% destinaram recursos a iniciativas de combate à fome, como bancos de alimentos e campanhas de doação de cestas básicas, enquanto 25% contribuíram para organizações de assistência social e 21% para causas ligadas à saúde. Outras áreas mencionadas incluem proteção dos animais, educação e pesquisa, proteção do meio ambiente e iniciativas de arte e cultura. A pesquisa também identificou que a maioria das doações financeiras foi direcionada a organizações com atuação local. Cerca de 60% dos respondentes afirmaram apoiar instituições que atuam em nível municipal ou comunitário, enquanto 29% contribuíram para organizações de alcance nacional. Esse padrão sugere uma preferência por organizações de menor porte e com atuação próxima ao local de residência dos doadores.

Doações e renda Em termos proporcionais, os resultados indicam que pessoas de menor renda destinam uma parcela maior de seus rendimentos às doações. Em 2024, apenas os indivíduos com renda familiar de até quatro salários mínimos destinaram, em média, mais de 1,5% de sua renda a organizações da sociedade civil. À medida que a renda aumenta, a proporção do rendimento destinada às doações tende a diminuir, embora os valores absolutos doados sejam mais elevados nos estratos de maior renda.

Regularidade das doações A pesquisa classifica os doadores financeiros em dois grupos principais: doadores recorrentes, que realizam contribuições programadas para uma mesma organização, e doadores pontuais, que fazem doações esporádicas. Entre 2023 e 2024, observou-se um aumento da proporção de doadores pontuais, que passou de 17% para 24% da população adulta. Como proporção do total de doadores, esse grupo cresceu de 62% para 76%. No mesmo período, a parcela de doadores recorrentes apresentou retração, passando de 11% para 8%. Segundo o relatório, esse movimento esteve associado, entre outros fatores, a eventos emergenciais ocorridos em 2024, como desastres socioambientais, que tendem a estimular doações imediatas, mas não necessariamente contribuições contínuas.

Doação de sangue, órgãos e tecidos O Retrato da Solidariedade 2024 também investigou comportamentos relacionados à doação de material biológico. A maior parte dos doadores de sangue declarou realizar a doação de forma espontânea, sem atender a pedidos específicos, enquanto cerca de 38% relataram doar para ajudar conhecidos hospitalizados. Entre os que nunca doaram ou não o fazem regularmente, as principais barreiras apontadas foram fatores estruturais, como não cumprir requisitos de saúde, desconforto com o procedimento e motivos religiosos, além de fatores considerados modificáveis, como falta de tempo, dificuldade de acesso e desconfiança no sistema de saúde. Em relação à doação de órgãos e tecidos, a maioria dos entrevistados declarou que autorizaria a família a permitir a doação em caso de morte cerebral. Em 2024, 61% afirmaram que dariam essa permissão, percentual semelhante ao registrado na edição anterior. Entre os que não autorizariam, destacam-se motivos como desconfiança no sistema de saúde, falta de informação e questões religiosas

Recepção Resultados da pesquisa passaram a ser citados na imprensa nacional. Reportagem da Folha de S.Paulo sobre a edição de 2023 destacou que o engajamento solidário dos brasileiros tende a se intensificar em contextos de catástrofes, com menor recorrência de doações fora de situações emergenciais. Em relação à edição de 2024, reportagem do Valor Econômico apontou que as doações financeiras para OSCs no país cresceram cerca de 40% (valor nominal), impulsionadas em grande parte pelas enchentes no Rio Grande do Sul, fenômeno também identificado nos dados da pesquisa. Em termos de percentual do PIB, o aumento estimado foi de 25%.

Impacto e uso dos dados Além de divulgar relatórios analíticos, a Retrato da Solidariedade disponibiliza publicamente seus questionários, bases de dados e documentação metodológica em repositórios de ciência aberta. O material é utilizado por pesquisadores, organizações do terceiro setor e instituições públicas interessadas em compreender padrões de solidariedade, filantropia e engajamento cívico no Brasil.

Referências