Aphilodon pereirai é uma espécie de quilópode da família dos geofilídeos (Geophilidae), subfamília dos afilodontíneos (Aphilodontinae). Foi descrita em 2019 por Victor C. Calvanese, Antonio D. Brescovit e Lucio Bonato a partir de exemplares coletados em Monte Verde, no município de Camanducaia, em Minas Gerais. Os afilodontíneos constituem um grupo de hábitos endogeicos e corpo alongado, caracterizado por particularidades do aparelho forcipular e atualmente reconhecido como parte dos geofilídeos. A espécie integra o gênero Aphilodon, posteriormente ampliado para dezesseis espécies, e distingue-se das demais congêneres pela combinação de dentículos curvos na lamela pectinada da mandíbula e pela ausência de presternito visível no último segmento portador de pernas. Os adultos conhecidos medem entre 23 e 71 milímetros de comprimento e possuem de 73 a 77 pares de pernas, número elevado em comparação com várias outras espécies do gênero. O corpo é fino e alongado, com antenas relativamente longas, forcípulas providas de três dentículos principais e glândulas de veneno parcialmente alojadas na região anterior do tronco. As últimas pernas são desprovidas de garra e terminam em um pequeno espinho apical, caráter diagnóstico de Aphilodon. Os machos apresentam gonópodes biarticulados e, como em outros afilodontíneos, exibem discreto dimorfismo sexual, com último par de pernas mais espessado e número de segmentos ligeiramente inferior ao das fêmeas. A espécie é conhecida apenas da localidade-tipo, em Monte Verde, no sudeste do Brasil, integrando uma linhagem predominantemente associada à Mata Atlântica. Trata-se de um animal endogeico e de hábitos crípticos, encontrado nas primeiras camadas do solo, geralmente sob grandes pedras, em micro-hábitats úmidos e protegidos. Sua biologia permanece pouco conhecida, embora a morfologia indique adaptações ao modo de vida predatório subterrâneo típico dos geofilomorfos. Em 2022, A. pereirai foi avaliada no Brasil como espécie pouco preocupante (LC), não sendo conhecidas ameaças capazes de indicar risco de extinção em futuro próximo.
Taxonomia e sistemática Aphilodon pereirai é uma espécie de quilópode geofilomorfo da família dos geofilídeos, pertencente à subfamília dos afilodontíneos. Foi descrita em 2019 por Victor C. Calvanese, Antonio D. Brescovit e Lucio Bonato, durante uma revisão das espécies neotropicais de Aphilodontinae. O holótipo, uma fêmea, foi coletado em setembro de 2015 em Monte Verde, no município de Camanducaia, em Minas Gerais, acompanhado por quatro parátipos, duas fêmeas e dois machos, provenientes da mesma localidade. O material-tipo foi depositado na coleção do Instituto Butantan, em São Paulo. O epíteto específico pereirai homenageia Luis Alberto Pereira, destacado especialista em geofilomorfos neotropicais. A subfamília dos afilodontíneos compreende centopeias endogeicas, de hábitos crípticos, com corpo fino e alongado. Seus representantes distinguem-se de outros geofilídeos por características incomuns do aparelho forcipular: as forcípulas possuem apenas três artículos funcionais, são armadas por uma série mesal de três ou quatro dentículos relativamente grandes e apresentam glândulas de veneno parcialmente alojadas no interior da região anterior do tronco. A posição sistemática dos afilodontíneos foi historicamente tratada ora como família própria, ora como subfamília dos geofilídeos, mas análises morfológicas e moleculares recentes confirmaram sua inclusão entre os geofilídeos. Na revisão de 2019, todos os gêneros e espécies então conhecidos de afilodontíneos foram analisados filogeneticamente com base em 47 caracteres morfológicos parcimoniosamente informativos. A análise confirmou a monofilia dos afilodontíneos, sustentada pela presença de cerdas subclipeais, por partes laterais do labro membranosas ou reduzidas, pela supressão da articulação funcional entre trocanteroprefêmur e fêmur das forcípulas e pela ausência de campos porosos ventrais. A subfamília foi recuperada como grupo-irmão de Geoperingueyia, formando com ele um clado caracterizado, entre outros traços, pela redução da região mediana do labro, pelo encurtamento dos telopoditos das segundas maxilas, pela ausência de garras nas segundas maxilas, pela presença de cerdas subapicais nos dentículos forcipulares e pela perda da garra nas últimas pernas dos machos. Dentro dos afilodontíneos, foram reconhecidas quatro linhagens principais, correspondentes aos gêneros Aphilodon, Mecophilus, Mairata e Philacroterium. As espécies sul-africanas foram reunidas em Philacroterium, enquanto os táxons neotropicais ficaram distribuídos entre Aphilodon, Mecophilus e Mairata. O gênero Aphilodon foi redefinido em sentido ampliado, incorporando Mecistauchenus e Brasilophilus, cujas espécies-tipo foram recuperadas no mesmo clado de Aphilodon spegazzinii, espécie-tipo do gênero. Ao final da revisão, Aphilodon passou a compreender dez espécies, das quais cinco foram descritas nesse trabalho, incluindo A. pereirai. Posteriormente, o gênero foi ampliado com a descrição de seis novas espécies, elevando para dezesseis o número de espécies conhecidas. Esse estudo também expandiu significativamente a distribuição conhecida de Aphilodon para o Nordeste do Brasil, com os primeiros registros para a Bahia, o Piauí e o bioma da Caatinga. A. pereirai foi incluída em Aphilodon por compartilhar os caracteres diagnósticos do gênero, como antenas afiladas em direção ao ápice, partes laterais do labro finas e membranosas, telopoditos das segundas maxilas com três artículos, procoxas do primeiro par de pernas separando o esternito e o coxosternito forcipular e ausência de depressão circular na região pleural dos segmentos portadores de pernas. O caráter considerado mais importante para diagnosticar Aphilodon é a presença de um pequeno espinho terminal nas últimas pernas, presente em ambos os sexos. Esse caráter distingue o gênero de Mecophilus, cujos machos não possuem garra nem espinho terminal e cujas fêmeas conservam dois artículos tarsais e uma garra terminal, de Mairata, cujas últimas pernas apresentam apenas um artículo tarsal, mas carecem tanto de garra quanto de espinho terminal, e de Philacroterium, no qual as últimas pernas possuem um ou dois artículos tarsais e apresentam garra terminal pelo menos nas fêmeas. A espécie distingue-se de todas as demais espécies conhecidas do gênero pela combinação de lamela pectinada da mandíbula com dentículos curvos e presternito do último segmento portador de pernas não visível. Entre as espécies de Aphilodon, compartilha com algumas formas de maior porte o elevado número de segmentos portadores de pernas, mas difere delas pelo padrão mandibular e pela morfologia do último segmento do tronco. A espécie apresenta de 73 a 77 pares de pernas, comprimento variando entre 23 e 71 milímetros, 22 a 44 poros coxais em cada coxopleuro, últimas pernas desprovidas de garra, mas providas de pequeno espinho terminal, e tarsúngulo ligeiramente mais curto que o conjunto formado pelo trocanteroprefêmur e pelo fêmur.
Descrição Aphilodon pereirai é uma espécie de corpo alongado, com adultos conhecidos medindo entre 23 e 71 milímetros de comprimento. Possui entre 73 e 77 pares de pernas, número elevado em comparação com várias outras espécies neotropicais do gênero. A placa cefálica é alongada, com razão comprimento/largura entre 1,3 e 1,4, e as antenas medem cerca de 2,3 a 2,7 vezes o comprimento da placa cefálica. A lamela pectinada da mandíbula apresenta dentículos curvos, caráter que diferencia a espécie de todas as demais espécies conhecidas de Aphilodon. O coxosternito das segundas maxilas não é distintamente encurtado na região mediana, e o telopodito das segundas maxilas possui o terceiro artículo mais curto que o segundo, com uma a quatro cerdas em posição apical ou subapical e um sensilo subapical. O segmento forcipular, correspondente ao primeiro segmento do tronco modificado em aparelho preensor, apresenta pretergito exposto e margem lateral posterior das forcípulas reta. Como nos demais afilodontíneos estudados, as glândulas de veneno não permanecem inteiramente confinadas ao segmento forcipular, encontrando-se parcialmente alojadas na região anterior do tronco. As forcípulas possuem três dentículos principais, além de um dentículo no tarsúngulo, artículo terminal do aparelho forcipular. Os dentículos do trocanteroprefêmur, do fêmur e da tíbia são relativamente grandes, enquanto o dentículo do tarsúngulo é relativamente pequeno. O tarsúngulo mede cerca de 0,9 vez o comprimento do conjunto formado pelo trocanteroprefêmur e pelo fêmur. Todos os pleuritos são conspícuos. Cada coxopleuro apresenta entre 22 e 44 poros coxais em adultos, distribuídos esparsamente. O presternito do último segmento portador de pernas não é visível, outro caráter diagnóstico da espécie, e o metasternito do último segmento apresenta razão comprimento/largura entre 0,7 e 0,8. As últimas pernas são cerca de 1,5 vez mais longas que as penúltimas, com o primeiro artículo tarsal aproximadamente 1,2 vez mais longo que a tíbia, e terminam em um pequeno espinho apical característico de Aphilodon, cuja homologia com a garra terminal ancestral ou com cerdas originalmente associadas ao pretarso ainda permanece incerta. O holótipo fêmea mede 38 milímetros de comprimento e 0,78 milímetro de largura máxima. A placa cefálica mede 0,55 milímetro de comprimento por 0,40 milímetro de largura, e a antena mede 1,3 milímetro, cerca de 2,4 vezes o comprimento da placa cefálica. O clípeo possui sete pares de cerdas laterais, dois pares de cerdas pós-antenais e 15 + 17 cerdas subclipeais, duas delas deslocadas para cada lado. A lamela pectinada da mandíbula possui 27 dentículos alongados e curvos. O segmento forcipular apresenta tergito trapezoidal, coxosternito mais largo que longo e forcípulas que não alcançam a margem anterior da placa cefálica. A fêmea possui 75 pares de pernas, com o primeiro par medindo cerca de 0,65 vez o comprimento do segundo. No último segmento portador de pernas, o metasternito é trapezoidal, mais largo anteriormente que posteriormente, e cada coxopleuro possui cerca de quarenta poros de diâmetro relativamente homogêneo, além de um poro distal distinto. Os machos conhecidos apresentam gonópodes biarticulados. O primeiro artículo é mais largo que longo e possui sete ou oito cerdas dispostas em duas fileiras, enquanto o segundo é triangular, afilado distalmente, com cerca de doze cerdas esparsas. Como ocorre em outros afilodontíneos, há dimorfismo sexual discreto: as fêmeas tendem a apresentar, em média, número ligeiramente maior de segmentos portadores de pernas, enquanto os machos adultos costumam possuir o último par de pernas mais espessado.
Distribuição e habitat Aphilodon pereirai é conhecida apenas da localidade-tipo, em Monte Verde, no município de Camanducaia, em Minas Gerais, no sudeste do Brasil. Foram examinados 23 exemplares da espécie, incluindo dezesseis fêmeas e sete machos, todos provenientes da mesma localidade. A espécie integra uma linhagem predominantemente associada à Mata Atlântica, mais especificamente a sub-bacia do Tietê, uma vez que oito das dez espécies conhecidas de Aphilodon ocorrem exclusivamente nesse bioma. Esse padrão é compartilhado pelos demais gêneros neotropicais de afilodontíneos, já que todas as espécies de Mecophilus e Mairata são conhecidas apenas da Mata Atlântica. As exceções são A. spegazzinii, registrada nos pampas da Argentina, e A. angustatus, distribuída no Pantanal e na Mata Atlântica. Posteriormente, a descrição de seis espécies adicionais ampliou a distribuição conhecida do gênero para o Nordeste do Brasil, com os primeiros registros para a Bahia, o Piauí e o bioma da Caatinga, elevando para dezesseis o número de espécies conhecidas de Aphilodon. Os afilodontíneos são animais endogeicos e de hábitos crípticos, associados às camadas superficiais do solo e a micro-hábitats úmidos e protegidos. Para A. pereirai, os registros de campo indicam coleta nas primeiras camadas do solo, a cerca de três a cinco centímetros de profundidade, sob grandes pedras. Esse tipo de micro-hábitat é compatível com o padrão ecológico geral do gênero, que inclui registros em húmus, folhiço, madeira em decomposição, sob cascas de troncos caídos e em solo superficial, reforçando o caráter endogeico do grupo.
Ecologia O hábito críptico e endogeico de Aphilodon pereirai dificulta sua detecção em campo, como ocorre com outros geofilomorfos. A espécie vive associada ao solo e provavelmente possui baixa detectabilidade, sendo conhecida apenas a partir de coletas especializadas. Não há informações disponíveis sobre dieta, reprodução, dinâmica populacional ou tolerância ambiental específica, mas sua morfologia alongada, as forcípulas especializadas e a presença de glândulas de veneno parcialmente alojadas na região anterior do tronco indicam adaptação ao modo de vida predatório subterrâneo típico dos geofilomorfos.
Conservação Aphilodon pereirai foi avaliada em âmbito nacional em 2022 e classificada como pouco preocupante (LC). A tendência populacional é desconhecida, e não são conhecidas ameaças que indiquem risco de extinção em um futuro próximo. A espécie possui registro em área protegida, ocorrendo na Área de Proteção Ambiental Fernão Dias, em Minas Gerais.
Referências